sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Pró-Democracia, muito prazer vê-la aqui

Foto de Well Silva, Orkut



Hoje foi o dia que o Rio de Janeiro mostrou porque sempre foi a vanguarda política do Brasil, 7 mil pessoas vestidas de preto, com os rostos pintados, nariz de palhaço apitos, bumbos e tambores, marcharam pelas ruas em uma passeata que lembrou as célebres concentrações de estudantes dos anos 60.

Mas porque dizer isso de uma manifestação considerada "pequena" por alguns "militantes profissionais" que se gabam de ter fechado a Rio Branco inteira?

Porque este movimento, o Pró-Democracia, não nasceu sob a bandeira de nenhuma organização política, partidária, trabalhista ou estudantil, nasceu apenas da vontade das pessoas que se sentiram ludibriadas por terem sido instadas a comparecer às urnas e votar naquele candidato que lhes parecesse mais correto.

E o que assistimos não preciso contar aqui, é mais do que conhecido, o resultado da eleição frustrou muitos, mas principalmente não representou a vontade da maioria das pessoas.

Apesar de numericamente os votos terem dado a vitória à Eduardo Paes, sabemos que muitos de seus votos foram conseguidos através de calúnia, suborno e opressão, que os torna ilegítimos, porque alteraram a vontade das pessoas contra a sua vontade ou iludindo a sua vontade.

Então por isso, por conta da propaganda dos "4 anos com a abelha no ouvido" é que o movimento está nas ruas, com o mesmo sentimento único que marcou as manifestações de estudantes do passado.

Em vez de passe livre ou professores, o que esses jovens foram reinvindicar é o direito de no futuro terem segurança jurídica de acreditar que há um poder maior que consiga impedir que essa nova classe de políticos chegue ao poder.

De cara conseguiram angrariar vários inimigos, a começar dentro dos próprios partidos políticos, pois MPD (Movimento Pró-Democracia) não nasceu sob a tutela de ninguém, ele foi uma geração espontânea criada no éter, na internet, e que ganhou as ruas numa comunhão de vontades que transcendem os estatutos partidários ou as colorações políticas.

Para os partidos isso pode significar o fim, uma das bandeiras do MPD é a reforma eleitoral já, isso acontecendo eliminaria mais de 50% dos partidos nanincos e as legendas de aluguel, questões como infidelidade partidária seriam tratadas com rigor e não aconteceriam casos como o candidato eleito que tem um histórico de passagens por 6 partidos.

E principalmente isso marca uma nova era da sociedade se relacionar com o poder, em que o cidadão recupera o seu respeito diante da autoridade e todas as bandeiras partidárias são substituídas por uma única que é a da nação brasileira.

Isso incomoda muito, principalmente a essa nova geração de políticos representadas por este boneco de ventríloco que se apresenta como prefeito.

São pessoas sem escrúpulos cujo mantra que entoam é "vencer a qualquer custo", como se o poder fosse uma reunião da tupperware para ver quem faz mais pontos.

Para isso eles se apropriam do discurso que mais lhes interessam, uma hora posam de populistas outra hora posam de extrema direita, e principalmente tem uma tendência terrível ao autoritarismo, porque afinal de contas ninguém sabe o que lhes passa pela cabeça, então não sabem trabalhar em conjunto ou afinados com a sociedade.

Nem preciso citar que em uma semana ele já conseguiu frustrar dois de seus aliados de campanha, negando-lhes cargos, até mesmo o PT, do presidente "amigo" do Rio ainda não conseguiu colocar seu pé dentro da sala de reunião onde se discute os cargos a serem distribuídos para os aliados, por enquanto só ganharam cargos dois amigos de longa data, um tecnocrata do governo anterior e um médico cujas referências são um tanto quanto nebulosas.

Muito pouco para quem prometeu mundos e fundos para a cidade, até agora o que vi de mudanças na cidade foram outdoors coloridos com a palavra UNIR em letras garrafais, aliás, alguém apresente à equipe de propaganda do candaidto eleito um programador visual, porque aquilo é ridículo.

Mas voltemos à passeata:

Foi de arrepiar, chegamos à cinelândia por volta de 11 e meia, já tinha bastante gente, algumas pessoas pintavam faixas no alto da escada, tinha espaço, deviam haver umas mil pessoas, já era uma aglomeração consideravel para um movimento que tinha surgido do nada em quatro dias já tinha mais de 13 mil pessoas associadas na internet, cheguei a comentar com a minha esposa: "se for isso já está muito bom, já dá uma visibilidade muito boa".

Mas me enganei, cada vez mais pessoas apareciam de todos os lados, de preto, com cartazes e faixas, mas ao contrário que se podia pensar que o preto simbolizaria luto e tristeza, estavam todos alegres, empolgados porque o movimento ganhara vida física diante dos seus olhos, o que eram fotos e ícones e apelidos viraram pessoas de carne e osso, identifiquei vários interlocutores de madrugadas insones no orkut andando pela multidão, não sei se fui reconhecido, mas também não me importava, estávamos lá e isso sim importava, e muito.

Quando surgiu aquela enorme bandeira do Brasil, tremulando sobre a multidão, o primeiro arrepio, caramba, quem poderá fazer algo contra nós debaixo desse imenso pavilhão verde-e-amarelo? E no megafone um dos organizadores pediu que nos déssemos as mãos e cantássemos o hino nacional, e cantando nossas vozes ecoavam na imensa praça já lotada de gente, pessoas desciam dos ônibus, vestidas de preto, outras não, correndo para se juntar a nós, muitos pegavam os celulares perguntando pelos colegas numa rede de ajuda mútua sem fio, o ar estava carregado de uma eletricidade boa, daquela que sentimos quando estamos perto de assistir algo grandioso.

Então nos pusemos em marcha, não se antes entoar mais uma vez o hino nacional, dessa vez muito mais forte, sentindo que o som se propagava cada vez mais longe vindo das gargantas daqueles jovens cheios de vida e pela primeira vez se sentindo vivos.

E de preto nós fomos, com nossos, tambores, tamborins, apitos e vozes descendo a Araújo Porto Alegre, nas calçadas as pessoas incrédulas olhavam meio que boquiabertas, algumas com sorriso nos lábios, muitos com seus celulares nas mãos tirando fotos, nunca uma passeata foi tão fotografada e filmada, estávamos fazendo a história de dentro da história.

Dos prédios assomavam cabeças, no princípio curiosas, depois acenos, papéis picados jogados das janelas lá no alto (um amigo meu na faculdade hoje a noite me disse que estava vendo da janela do escritório dele e ficou tão desesperado que não podia descer que fez um monte de papel picado e jogou pelas janelas, e depois descobriu que tinha picado documentos da empresa!).

Em frente a ABI, de lutas históricas pela democracia várias pessoas se apinhavam na portaria e na calçada em frente para ver a nossa passagem, mais a frente o Palácio Gustavo Capanema, que tantas vezes abrigou sobre seus pilares manifestações como aquelas e que agora de suas imensas janelas as pessoas se acotovelavam para nos ver passar.

Fomos andando, cercados pelo cordão segurança da PM, nos cruzamentos, a Guarda Municipal bloqueava o trânsito à nossa passagem, não sentíamos nenhuma ameaça da parte deles, eles estavam ali fazendo o seu trabalho e nós cumpríamos nossa parte do trato, nos comportando, andando, cantando, acenando para as janelas que retribuíam nossos acenos, viramos a esquina da Pres. Antônio Carlos e aquela enorme avenida de 4 faixas pareceu engolir a multidão, mas nós ficamos junto aos prédios, nos ônibus que passavam cabeças se voltavam, dedos apontavam, mais celulares, fotos, nas mãos levantadas pro alto os gadjets de última geração tentavam guardar aquelas lembranças daquele momento único e mágico.

Entramos na Presidente Wilson, conforme o acordo, deveríamos deixar meia rua para a passagem dos carros, não dava, era um mar de gente, vindo de todos os lados, agora sem nenhum pudor transeuntes entravam na passeata conosco, cheguei a ver um jovem de camisa social com um nariz de palhaço gritando slogans ao nosso lado, ganhamos a cidade, o Centro da Cidade nos abraçava e nos dava as boas vindas.

Das janelas mais pessoas, as janelas que mantinham os escritórios hermeticamente fechados em seu ambiente refrigerados eram abertas para junto do ar fresco entrarem os gritos dos manifestantes “Ei... você que está olhando... alguém está te roubando.." e “desce.. desce”, um rapaz simulou tentar passar pela janela e foi ovacionado “.. pula.. pula.. pula..” algumas meninas do escritório pegaram papéis escreveram algo em letras garrafais que não conseguimos ler, mas a ovação foi geral.

Das janelas do prédio do TRE mais gente aplaudindo efusivamente “ué, mas não era feriado?” perguntaram, “ é o pessoal do TSE de Brasília que está aqui, está havendo plantão no Tribunal” de duas janelas diferentes apareceram bandeiras do Brasil, oficiais, daquelas de colocar no mastro mesmo, eles sabiam por que estávamos lá e nos aplaudiam, o povo encontrava o poder de forma pacífica e irmanada no mesmo ideal: justiça.

"JUSTIÇA... JUSTIÇA... JUSTIÇA” era o brado em frente do Tribunal, às nossas costas o prédio da ABL com um Machado de Assis nos olhando de um conjunto de fotos que o mostrava em várias fases de sua vida, como se dissessem, “jovens, ah esses jovens, sua carne pode fenecer, mas seu espírito é imortal”, abençoados pelo olhar de Machado o orador agora de cima do carro de som, péssimo por sinal, não dava pra ouvir nada estando a mais de 10 metros dele, pediu para que todos sentássemos para fazer um minuto de silêncio.

Então aconteceu um momento mágico, o que era antes um barulho ensurdecedor desapareceu completamente, sentados ouvimos o vento nas árvores, nem buzinas de carros, nada, era como se o tempo tivesse parado e todos ficamos ali, como se fosse uma eternidade, pensando, pedindo, orando, ou simplesmente esperando.

Quando terminou, nos levantamos, aplaudimos, gritamos, apitamos, como se fosse uma grande catarse, como se fosse para despertar toda a cidade de um estupor milenar.

Ouvimos do orador que as denúncias foram protocoladas, apresentaram o protocolo como se fosse um troféu, e era, ali estava o reconhecimento que aquelas milhares de pessoasi não foram à toa, e então nos convidou para pela última vez cantarmos o hino nacional.

Dessa vez foi mais belo, mais forte, o som foi longe, lá de dentro da ABL, nas janelas as pessoas também entoavam o hino, estávamos todos juntos no mesmo sentimento de algo maior estava sendo selado ali, um pacto de respeito e cidadania.

No final, quando o orador disse que estava tudo terminado, que tudo havia sido perfeito, que agora era hora de voltarmos para casa e continuarmos o trabalho de fortalecer o movimento e esclarecer as pessoas sobre o que realmente queremos, uma faixa foi entregue e aberta sobre o caminhão, nela dizia:

“Juntos, somos MAIS fortes.”

E somos mesmo.

2 comentários:

Rosanna Rodriguez disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gabriel Melgaço disse...

BELA MANIFESTAÇÃO! Sem violência ou partidos.. foi a cidadania pura!